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quarta-feira, julho 12, 2006

Diana e Actéon

Este é o 7º artigo desta série. Os três últimos são:

04 - Céfalo e Prócris
05 - Juno e suas Rivais - Io
06 - Juno e suas Rivais - Calisto

Vimos, assim, dois exemplos da severidade de Juno para com suas rivais. Vejamos, agora, como uma deusa virgem castigou um ofensor de seu recato.

Era meio-dia, e o sol encontrava-se a igual distância de ambas as metas, quando o moço Actéon, filho do Rei Cadmo, assim se dirigiu aos jovens que com ele caçavam o cervo nas montanhas:

- Amigos, nossas redes e nossas armas estão úmidas do sangue das vítimas. Já nos divertimos bastante por um dia, e amanhã podemos recomeçar as nossas atividades.

Agora que Febo cresta a Terra, deixemos de lado nossos instrumentos e entreguemo-nos ao repouso.

Havia um vale rodeado por densa vegetação de ciprestes e pinheiros, consagrado à rainha caçadora, Diana. Na extremidade do vale havia uma gruta, não adornada pela arte, mas a natureza imitara a arte em sua construção, pois cravejara a abóbada de seu teto com pedras, tão delicadamente como se estivessem dispostas pelas mãos do homem. De um lado, jorrava uma fonte, cujas águas se espalhavam numa bacia cristalina. Ali, a deusa dos bosques costumava ir, quando cansada de caçar, e lavava seu corpo virginal na água espumejante.

Certo dia, tendo entrado ali com suas ninfas, entregou a uma delas o dardo, a aljava e os arcos, a túnica a uma segunda, enquanto uma terceira retirava-lhe as sandálias dos pés. Então, Crócale, a mais habilidosa de todas, penteou-lhe os cabelos, e Nefele, Híale e as demais carregavam a água em grandes urnas. Enquanto a deusa entregava-se assim aos cuidados íntimos, Actéon, tendo-se separado dos companheiros e vagando sem qualquer objetivo definido, chegou ao local, levado pelo destino. Quando surgiu à entrada da gruta, as ninfas, vendo um homem, gritaram e correram para junto da deusa, a fim de escondê-la com seus corpos. Ela , porém, era mais alta que as outras e sobrepujava todas pela cabeça. Uma cor semelhante à que tinge as nuvens no crepúsculo e na aurora cobriu o rosto de Diana, assim apanhada de surpresa. Cercada, como estava, por suas ninfas, ainda fez menção de voltar-se e procurou, impulsiva, as setas. Como estas não estivessem ao seu alcance, atirou água ao rosto do intruso, exclamando:

- Agora, vai, e dize, se te atreves, que viste Diana sem suas vestes.

Imediatamente um par de chifres galhados cresceu na cabeça de Actéon, seu pescoço encompridou-se, suas orelhas tornaram-se pontudas, suas mãos e braços transformaram-se em patas, seu corpo cobriu-se de um pêlo espesso. O medo substituiu a antiga ousadia, e o herói fugiu. Ele próprio admirava a velocidade com que corria, mas, quando viu os chifres refletidos na água, quis dizer “Desgraçado!”, e a palavra não saiu. Gemeu, e lágrimas escorreram-lhe pela cara que tomara o lugar de sua própria. Sua consciência no entanto, permaneceu. Que fazer? Voltar para casa, procurar seu palácio, ou ficar escondido nos bosques?

Tinha medo de uma coisa e vergonha de outra. Enquanto hesitava, os cães o avistaram. Primeiro Melampus, um cão espartano, deu o sinal, com um latido, depois, Panfagu, Dorceu, Lelaps, Teron, Nape, Tigre e todo o resto correram-lhe no encalço, mais velozes que o vento. Por despenhadeiros e rochedos, através de gargantas que pareciam impraticáveis, Actéon fugiu e os cães o seguiram. Onde ele muitas vezes caçara o cervo e açulara a matilha, a matilha o caçava, açulada por seus caçadores! Queria gritar: “Sou Actéon! Reconhecei vosso dono!”, mas as palavras não obedeciam à sua vontade. O ar ressoava com os latidos dos cães. De súbito, um agarrou-o pelas costas, outro, pelos ombros. Enquanto os dois imobilizavam seu dono, o resto da matilha aproximou-se e cravou os dentes em sua carne. Ele gemeu – um gemido que não era humano, mas que não era, também, o de um cervo – e, caindo de joelhos, ergueu os olhos e teria erguido os braços, numa súplica, se os tivesse. Seus amigos e companheiros festejaram os cães e procuraram Actéon por toda a parte, chamando-o para juntar-se à comitiva. Escutando o seu nome, ele virou a cabeça e ouviu os outros lamentarem a sua ausência. Antes estivesse ausente! Teria se comprazido em ver as façanhas dos cães, mas senti-las era demais. Todos estavam em torno dele, mordendo e despedaçando; e somente quando Actéon exalou o último suspiro, a ira de Diana se satisfez.

No poema “Adonai” (Que Shelley [Percy Bysshe Shelley - 1792-1822] compôs em homenagem a John Keats), Shelley faz alusão à história de Actéon:

Um débil vulto, entre outros vultos, surge;
Um fantasma entre os homens; solitário,
Como da tempestade a derradeira
Nuvem, tendo por dobre funerário
O trovão. Ele, a Actéon semelhante,
Contemplou a nudez da Natureza
E foge agora pela terra inteira:
Os próprios pensamentos o perseguem,
Como ferozes cães, de instante a instante.


A alusão refere-se, provavelmente, à própria Shelley.


Não deixe de ler o próximo artigo, LATONA E OS CAMPONESES, a ser postado em breve.

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