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quarta-feira, julho 12, 2006

Latona e os Camponeses

Este é o 8º artigo desta série. Os três últimos são:

05 - Juno e suas Rivais - Io
06 - Juno e suas Rivais - Calisto
07 - Diana e Actéon


Alguns acham que, neste caso, a deusa foi mais severa que justa, enquanto outros louvam sua conduta, como rigorosamente de acordo com seu recato virginal. Como sempre, um acontecimento recente traz ao espírito outro mais antigo e um dos que ouviram o episódio contou esta história:

“Alguns camponeses da Lícia insultaram, certa vez, a deusa Latona, mas não impunemente. Quando eu era jovem, meu pai, que estava demasiadamente velho para certos trabalhos, mandou-me à Lícia, para lá trazer um rebanho de gado selecionado e ali tive ocasião de ver o lago e os pântanos onde se passou o maravilhoso acontecimento. Perto fica um pequeno altar, enegrecido pela fumaça dos sacrifícios e quase escondido ente os juncos. Indaguei que altar seria aquele, se dos Faunos ou das Náiades, ou de algum deus das montanhas vizinhas, e um habitante da região respondeu-me:

- Nenhum deus de montanha ou de rio possui este altar, mas sim aquela a quem a real Juno, em seu ciúme, expulsou de terra em terra, negando-lhe um recanto qualquer onde pudesse criar os gêmeos. Trazendo em seus braços as divindades infantes, Latona chegou a esta terra, cansada e sedenta. Por aças, viu, no fundo do vale, esta lagoa de águas claras, onde a gente da região trabalha, colhendo junco e vime. A deusa aproximou-se e, ajoelhando-se à margem da lagoa, ia saciar a sede em suas águas , mas os rústicos a impediram que o fizesse.

- Por que me recusais a água? – ela perguntou. – A água pertence a todos. A natureza não permite que ninguém reclame direitos de posse sobre a luz do sol, o ar ou a água. Venho compartilhar meu direito a um bem comum. Peço-vos, no entanto, como um favor. Não pretendo lavar nelas meus membros, por mais extenuada que esteja, mas apenas matar minha sede. Tenho a boca tão seca, que mal consigo falar. Um gole de água será o néctar para mim; há de reviver-me, e ser-vos-ei grata como pela própria vida. Possam estas crianças, que estendem os bracinhos, como que pedindo por mim, mover-vos à piedade!

Realmente, as crianças, enquanto ela falava, estendiam os bracinhos.

Quem não se comoveria com estas ternas palavras da deusa? Ms aqueles rústicos persistiram em sua rudeza; chegaram a acrescentar insultos e ameaças de violência se ela não abandonasse o local. E não se limitaram a isso. Entraram na lagoa e agitaram a lama com os pés, de maneira a tornar a água imprópria para ser bebida. Latona sentiu-se indignada a tal ponto que nem mais pensou em sua sede. Já não implorava aos rústicos, mas, levantando os braços para o céu, exclamou:

- Possam eles jamais deixar esta lagoa, mas passar nela suas vidas!

E isto aconteceu. Eles agora vivem na água, às vezes inteiramente submergidos, outras vezes levantando as cabeças à superfície ou nela nadando. Às vezes, saem para a margem da lagoa, mas logo pulam de novo para dentro d’água. Ainda continuaram a usar suas vozes de vilões nos vitupérios e, embora a água os cubra todos, não se envergonham de coaxar no meio dela. Sua voz tornou-se rude, a garganta intumesceu, a boca distendeu-se com o constante coaxar, os pescoços encolheram-se e desapareceram e a cabeça se juntou ao corpo. As costas tornaram-se verdes, o ventre desproporcionado, branco, em resumo, eles são agora rãs e moram na lamacenta lagoa.”

Este episódio explica a alusão em um dos sonetos de MiltonSobre as calúnias que se seguiram à redação de certos tratados”:

Ante os asnos e os cães, raças malsãs,
Que visavam, rastejando como um verme
Nada mais fiz que confiar na História.
Também a raça transformada em rãs
De Latona insultou a prole inerme,
Que a lua e o sol depois regeram em glória.


O episódio, como se viu, alude à perseguição sofrida por Latona da parte de Juno. A tradição contava que a futura mãe de Apolo e Diana, fugindo da ira de Juno, andou por todas as ilhas do Mar Egeu, procurando um lugar de repouso, mas todos temiam demasiadamente a poderosa rainha do céu para proteger sua rival. Somente Delos concordou em se tornar o berço das futuras divindades. Delos era, então, uma ilha flutuante, mas, quando Latona ali chegou, Júpiter prendeu-a com cadeias fortíssimas ao fundo do mar, de maneira que pudesse tornar um abrigo seguro para seus bem-amados. Byron alude a Delos em seu “Don Juan”:

Verdes ilhas da Grécia! Ilhas da Grécia!
Onde amou e cantou a ardente Safo,
Onde a arte nasceu, na paz e guerra,
Onde Delos se ergueu e ergueu-se Febo!

O próximo artigo desta série é FAETONTE

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